domingo, agosto 22, 2004,
 

A FLOR E A NÁUSEA

Preso à minha classe e a algumas roupas,
Vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me'?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Carlos Drummond
 


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quarta-feira, agosto 18, 2004,
 

Pilão de soca sebo


- Milagre? - Sim claro, milagre! - Mas, dos divinos ou dos indivinos? - Dos dois tipo, milagre é milagre. - Então ocê toca no doente e ele desadoença? - Depende da doença, câncer e aidis não, pois é doença de quem tá pagando pecado. - Vôte, que coisa. - Se ocê passa pela minha sombra também fica curado, mas daí é cura prá mal menor, pois sombra não é muita coisa. - É mais barato? - Claro, tudo depende do mal, se é mal daqueles que sangra, cai pedaço, nasce pedaço, cegueira e dor de dente é mais caro; mas daí se for mal dos que resfria, mancha na pele, dor de cabeça, vizinho ruim e infertilidade o preço é menor. E tem também os mal, malzinho, coisa de precisamento pequeno: filho que fugiu, filho desandado do bom caminho e dor de corno é quase de graça.

Sala. Três cadeiras e uma mesinha. Nhô Pérê, na falta de nome melhor, se sentava na cadeira amarela, frente as cadeiras marrons. As cores não significavam nada era falta de cadeira mesmo. Nhô Pérê vestia uma camisa branca, uma bermuda do Corinthians e um chinelo de dedo com uma bandeirinha do Brasil. A bermuda de time era falta de roupa também. Ele torcia pro Fluminense. Tinha corrente com medalha de São Jorge no pescoço, relógio CASSIO a prova d'água e segurava um santinho com uma foto do Adoniran Barbosa. Acima de nhô Pérê uma placa com letras azuis: AQUI SE FABRICA MILAGRES.

O Problema. - Nhô Pérê o meu é malzinho, fácil, eu preciso dum home. - Mas eu sou muito velho guria. - Vôte nhô Pérê, eu quero é que o senhô me faça um milagre prá pega home. - Ah! Um, ocê quê de que tipo, alemão batata ou neguinho? - Ah! Um, tanto faz, sendo home. Nhô Pérê tirou um vidrinho e entregou para menina. - Ocê tem que come esse alfenin cô açúca começando pelo primeiro dia que desce o xicô. - Ah! Um, nhô Pérê. - Achô ruim? - É tão fácil assim? - Melhor poção prá guria que quê amoita. - Tão tá. - Cinqüenta pelo remédio. - Vôte! Nhô Pérê isso aqui é só melado de cana-de-açúca! - Ah! Um, ansi não dá certo, ocê tem que confia no nhô Pérê. - Mas tá. - De prenda leva esse tchá de amarra pinto, que é bom prá doença de fígado. - Txau. - Txau.

Môema. Chegou em casa. Observou o vidrinho Podia dar formiga, barata. - Que reiva, diabo de nhô Pérê, to ressabida que esse tréco não funúnça. - Fîa ocê volto? - Voltei. - Traz uma água prá mãnhê e o remédio. - Tá. - Achô? - Achêi. - Achô mesmo? É esse azul da caixinha amarela. - Achêi mãnhê. - Achegá aqui no quarto então, vem adulá sua mãnhê. - Tá. - Como foi cô nhô Pérê? - Ele acêrto comigo que tem que toma um tréco aqui quando o xicô desce. - Confia nele fîa nhô Pérê de sabedoria, tem aúfa, não é baguerage não. - Sei. - Ocê vai casa fîa, um alemão batata lindo dos olhos azul. GULP! Mãnhê toma seu remédio azul.


Môema. Na dúvida, tomou, comeu e se lambuzou. Algumas formiguinhas vieram; era gostosinho. Preferia dos neguinhos, alemão batata era muito aguado. Sobrinha. - Môema ocê me empresta essa poção do nhô Pérê? - Vai peida n'água menina paguei caro pressa poção. - Enfia no grelo então!

Galo índio. Quase foi brô buque quando vivia em Rondonópolis. Dizem matou três e comeu dois. Clei. - O nome dele, parece home de fogo menina, fodedô de châpá. - Ele tá vendendo petxe lá nô pau baixo. - Negueinho ele, aúfa de bonito. com alfenin. Beber ou comer cru? Passar na xôxóta?

Corre, corre. - Clei, pau fedeu danado, tem um baguá que quê leva ocê prá catacumba. - Avestruz, guri! - To falando, tá dizendo ele que ocê catracô a prima nova dele. - Esse aranzé eu num quero vê. - Corre prá casa da tia Madalena, se esconde na alcova dela. - Já fui guri!

Madalena. - Tia ocê pode me dexá passa a noite aqui na sua alcova? - Pode sim fîo, pede prá Môema arruma sxua cama. O quarto era velho e úmido. Estava num budum de assusta alma penada, mas de ser capado e continua catracando prima nova. - Vôte Môema, que budum, tem jeito não? - Não. - Tá bão.

Catelin. Sobrinha. Doze anos, noventa e cinco quilos. Chamam de Mônhe. Não gosta de banho, diz quê. - O tchêiro forte espanta o pernilongo. Na sala de aula. Faz carinho na xôxóta e depois. - Gosto de tchêira, é azedinho. Gosta do primo Baltazar. - Ele é tão lindo! Noite. Roubou a poção de Môema esfregou na xôxóta ficou cheirando os dedinhos até pegar no sono.

- MÃNHÊ!AMÔNHEROBOAPOÇÃOQUEONHÔPÉRÊFEZPRAMIM! - Calma fîa, devagá cô andô, que ocê disse? - Mãnhê! A Mônhe robo a poção que o nhô Pérê fez pra mim! - Ah! Um, ela deve tê atchádo que era doce.

Victor Tales.
 


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domingo, agosto 15, 2004,
 

Censura Impossível

Calabouços e cadafalsos,
nem luz ou resoluto.
Só sombras e pavor,
uns, garimpam ouro
e outros, gritam. De dor!

Vou seco, vazio, ermo.
se existem espetáculos
não me foram suficientes.

No meu rosto destruído,
(rugas, pulgas, feridas).
Ainda vivem, esses olhos,
minha cordilheira titânica.

Victor Tales.
 


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quarta-feira, agosto 04, 2004,
 

Fígado de flor

Essa dor estupenda,
com o coração
feito oferenda
numa bandeja
inda! pulsa! e tenta.
Soco ou corro,
Na mente é ira
diz: Veja, veja:
- Amor é uma lenda?.

Victor Tales.
 


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domingo, agosto 01, 2004,
 

Merca( L )do

Vou de lado alado
feito um caranguejo
vou de cabo_a_rabo
feito um diabo

Sou tempe( R )ro
desse caldo insosso
ginsenge sal grosso
vou do sul ao Mato Grosso
montado no lombo do capeta

Enquanto o mundo chora
eu mamo na chupeta

Victor Tales.
 


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Como se eu carregasse um boi no peito,

Descasco o meu punho
dedo a dedo, feito pétalas,
descubro a palma da mão.
Não segurava tesouros arcaicos,
sim um fruto em floração
morno em carne o meu coração
esse órgão recém nascido
que pulsa sem parar a saudação
"coma-me, coma-me, coma-me!"
Botou nele um colar de perolas
e o prendeu sob belezas inertes.

Victor Tales.
 


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